terça-feira, 1 de março de 2016

A morte não manda recados



Como os sonhos podem ter papel terapêutico no fim da vida de uma pessoa III
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Jan Hoffman
Em Lancaster, New York (EUA)
  • Jonathon Rosen/The New York Times
…ULTIMA PARTE.


Reviver um trauma
O paciente nunca havia falado realmente sobre a guerra. Mas em seus sonhos finais, as histórias surgiram. No primeiro, os mortos estavam por toda parte. Na Praia Omaha, na Normandia. Nas ondas. Ele foi artilheiro aos 17 anos e estava em um barco de resgate, tentando freneticamente trazer os soldados de volta para o USS Texas. "Só há morte e homens mortos ao meu redor", contou ele. Em outro, um soldado falecido disse a ele: "Eles vêm buscá-lo na semana que vem". Finalmente, sonhou que recebia os documentos de dispensa, o qual descreveu como "reconfortante". John, de 88 anos, que teve um linfoma, morreu dormindo dois dias depois.

Mas nem todos os sonhos de final de vida acalmam as pessoas que estão morrendo. Os pesquisadores descobriram que cerca de 20 por cento são perturbadores. Frequentemente, quem sofreu um trauma pode revivê-lo em sonhos à beira da morte. Alguns conseguem resolver a experiência. Outros não.

Quando é preciso intervir com remédios antipsicóticos ou ansiolíticos para ajudar o paciente a ter uma morte pacífica? Para os médicos do Lar Buffalo, a decisão é tomada com uma equipe de avaliação que inclui as opiniões dos membros da família.

Kerr explica: "Os filhos vão ver os pais em estados alterados e acham que estão sofrendo ou lutando contra a morte. Mas se você disser: 'Ela está falando sobre pessoas falecidas, e isso é normal. Aposto que você pode aprender muito sobre ela e sua família', pode ver que os parentes vão se acalmar e tomar notas".

Sem informação suficiente da família, a equipe pode não saber como interpretar a agitação do paciente. Uma delas parecia atormentada por pesadelos. A equipe do Lar Buffalo entrevistou pessoas da família, que de modo relutante contaram que a mulher havia sido abusada sexualmente quando era menina. A família estava horrorizada com o fato de ela estar revivendo essas memórias em seus últimos dias.

Com essa informação, a equipe preferiu administrar um ansiolítico, ao invés de apenas antipsicóticos. A mulher relaxou e foi capaz de se comunicar com um padre. Ela morreu dormindo calmamente alguns dias depois.

No final do ano passado, a enfermeira Donna Brennan estava cuidando de um ex-policial no estágio final de um câncer de pulmão. Ele contou a ela que havia "feito coisas ruins" no emprego. Disse que tinha traído a mulher e estava afastado dos filhos. Seus sonhos nunca eram pacíficos. "Ele era esfaqueado, levava um tiro ou não podia respirar. Pedia desculpas para a mulher e ela não respondia, ou lembrava a ele o quanto a havia machucado. Ele é uma alma torturada."

Alguns provedores de cuidados paliativos acreditam que esses sonhos são o centro de uma experiência espiritual e não deveriam ser manipulados. Quill, que chama as pessoas com essas visões de "românticos da casa de saúde", não concorda.

"Deveríamos abrir a porta com nossas questões, mas não forçar os pacientes a passar por ela. Nosso trabalho é testemunhar, explorar e diminuir a solidão. Se for benigno e rico em conteúdo, que venha. Mas se trouxer de volta dores sérias, buscamos ajuda -- um psicólogo, um religioso -- porque nessa área, nós médicos não sabemos o que fazer."

Alívio para os vivos

No primeiro sonho, uma aranha preta com olhos pequenos chegou perto de seu rosto. Em seguida, transformou-se em um grande caminhão preto com uma carroceria vermelha, caindo sobre ela. Aterrorizada, ela se forçou a acordar. Em outro sonho, teve que passar por sua lavanderia para chegar à cozinha. Olhou para baixo e viu umas 50 aranhas pretas rastejando no chão. Ficou apavorada! Mas quando olhou mais de perto, viu que eram joaninhas. "Joaninhas são fofas e eu sabia que não iam me machucar. Então fui para a cozinha", contou Rosemary Shaffer, de 78 anos, dois meses antes de morrer de câncer de cólon. 

Jonathon Rosen/The New York Times 


Os pesquisadores do Lar Buffalo descobriram que esses sonhos confortam não apenas os que estão morrendo, mas também quem fica.

Kathleen Hutton não larga os diários de sonhos do final da vida mantidos meticulosamente por sua irmã, Rosemary Shaffer, ex-professora de educação primária e diretora de escola. Rosemary escreveu sobre as aranhas e os caminhões e sobre as joaninhas. Em um sonho, viu flores em uma funerária, que a lembraram das que a filha pintava em cachecóis artesanais. Ela se sentiu amada e feliz.

"Ainda bem que ela podia falar de seus sonhos com as pessoas do Lar. Ela sabia que era o seu subconsciente trabalhando em seus sentimentos. Ficou muito mais em paz", afirma Kathleen.

Saber disso acalmou sua própria dor, afirma Kathleen, que chorava enquanto apertava os diários durante uma visita ao lar.

Vários meses atrás, a enfermeira Donna, sentou-se ao lado de um marido desesperado, cuja mulher tinha um câncer no pâncreas que havia se espalhado pelo fígado. Ela havia lhe contado sonhos com trabalho, Deus e conhecidos já falecidos. A paciente disse que achava que seria bem-vinda ao paraíso. Que Deus afirmara que ela havia sido uma boa mulher e mãe.

"O marido estava bravo com Deus. Eu disse: 'Mas Ann não está. Os sonhos não são assustadores para ela. São uma confirmação'", conta Donna.
"Ele só abaixou a cabeça e chorou."